Alguns dias atrás, tivemos um episódio interessante: Bela Gil, formada em culinária natural e em nutrição e ciência dos alimentos, chamou o flúor de "porcarito" cheio de malefícios e disse que escova os dentes com cúrcuma (também conhecido como açafrão-da-terra). Formou-se então a polêmica.
Antes de começar, vamos esclarecer algumas ideias. As pesquisas indicam que cúrcuma tem sim muitas propriedades boas, mas ainda não foi bem definido seu papel na odontologia. Algumas das pesquisas que a Bela depois postou indicaram benefícios, mas quando a cúrcuma estava associada a outras substâncias, e não usada isoladamente (fora que gente, ninguém merece escovar os dentes com um pó amarelo né?!). De qualquer forma, acho que cada um faz o que quer, e aquela é a opinião dela. Acontece que ela, como formadora de opinião, tem que tomar cuidado com o que fala. Por exemplo, se um indivíduo que já tem muitas cáries resolve parar de usar pasta fluoretada e usar cúrcuma, a situação vai ficar ainda pior (explico o motivo logo abaixo)!
Agora, o que eu acho péssimo é essa falta de educação das pessoas na internet. Mesmo que não concordem com essa opinião dela, nada justifica ir até lá e dispor xingamentos e difamações contra ela. Péssimo, feio, desnecessário, horroroso, tenho várias palavras pra essas atitudes. Pronto, feito o desabafo, podemos continuar rs.
Pra entender a cárie e o papel do flúor nisso, vamos do começo:
Em condições "normais", a saliva é supersaturada em relação ao esmalte do dente: isso significa que ela tem muuuitos íons cálcio e fósforo, mais que o dente. Nessa situação, o meio bucal tem pH neutro (acima ou igual a 5,5). Quando o dente erupciona, o esmalte passa por um processo de maturação, isto é, ele ganha alguns desses íons e se torna cada vez mais mineralizado, com a formação de novos cristais de hidroxiapatita (o esmalte do dente é formado por cristais).
Quando consumimos açúcar, bactérias presentes na boca o usam como matéria prima e produzem ácidos. Esses ácidos fazem com que o pH caia (<5,5 até 4,5), e aí começa o processo de desmineralização do esmalte.
Pois bem, daí a partir de vário fatores (limpeza natural da cavidade bucal pela saliva; escovação; etc) o pH volta ao normal (5,5), e a tendência é o esmalte do dente ganhar íons de cálcio e fósforo da saliva, tentando repor o que foi perdido. Essa parte é chamada de remineralização.
Agora a parte importante:
Quando o flúor está presente na boca, em vez de o dente pegar de volta só o cálcio e o fósforo, ele pega o flúor pra ele! Daí se forma um cristal chamado fluorapatita. Essa fluorapatita só é dissolvida quando o pH fica abaixo de 4,5. Isso significa que a bactéria tem que trabalhar muuuito mais pra conseguir desmineralizar o dente, entenderam?
MAS se o pH fica abaixo de 4,5 por tempo prolongado (um indivíduo que não escova os dentes por exemplo), não há estrutura que aguente, e é aí que começam a se formar os "buracões" no dente.
Portanto pessoal, se o flúor está presente no meio bucal, ele participa do processo desmineralização-remineralização, fazendo diminuir a velocidade de perda de estrutura do dente. Percebam então a importância dele gente: ele dificulta a cárie! Cárie evoluída = dor = sofrimento, complicações!!!
Pra alguém que sempre teve instruções de como escovar os dentes, que sempre teve pasta de dente e escova em casa, que sempre foi companhado pelos pais, esse detalhe pode parecer insignificante, mas para populações mais carentes de recursos e instruções, o flúor é muito importante pra saúde bucal!
E AÍ VEM ALGUÉM FALAR PRA TIRAR O FLÚOR DE TUDO?! Pelo amor né..
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Quanto aos artigos que a Bela Gil postou, tenho uma ressalva a fazer. Qualquer pessoa pode fazer um artigo e mandar pra uma revista, a questão é pra qual revista. No mundo científico, existe uma classificação de revistas, assim como existem profissionais de nota 8 a 80, existem revistas péssimas e revistas excelentes. A classificação é A1 (o mais elevado); A2; B1; B2; B3; B4; B5; C (com peso zero). As revistas boas tem pessoas competentes que analisam cada letra do que foi escrito, analisam o método utilizado, investigam se os resultados não foram forjados pelo interesse do autor, e por aí vai. Portanto, quando alguém fala em artigos, não se impressionem tanto: procurem saber a qualidade daquilo.
Seguem dois artigos dentro do nosso assunto de hoje:
(Clique no sublinhado para acessar a página deles)
Artigo 1: Publicado em uma revista A1.
Fala sobre a fluoretação da água da Inglaterra e seus resultados.
- Menor prevalência de cárie em crianças que viviam nas áreas com água fluoretada
- Menos dentes afetados pela cárie
- A fluoretação não foi associada com ocorrência de síndrome de Down, câncer, osteosarcoma ou pedras nos rins.
Concluíram que "a fluoretação é um método seguro e muito efetivo de saúde pública para reduzir a incidência de cárie".
Artigo 2: Publicado em uma revista A2.
Compararam 9 tipos de intervenções pra reduzir a incidência de cáries em crianças (fluoretação da água, vernizes dluoretados, pastas de dente com flúor, visitas de prevenção ao dentista, dentre outros) e qual seria o efeito de parar com a fluoretação em Nova Iorque.
Concluíram que água fluoretada e pastas de dente com flúor, por exemplo, promovem redução da incidência da cárie e que intervenções que necessitam de um profissional tem um maior custo do que os outros métodos. Concluíram também que remover a fluoretação da cidade faria aumentar dramaticamente a incidência da doença e aumentaria também os custos para governo e as pessoas.
Pra finalizar, só uma observação. Crianças com dentes em formação não devem ingerir pastas com flúor, pois caso a criança tenha excesso de flúor no organismo, há chance de ocorrer a fluorose dentária no dente que está se formando. É recomendado que crianças pequenas realizem escovação sob supervisão dos pais, justamente para que não ocorra a ingestão da pasta. Agora, se a criança tem e tendência de engolir a espuma toda vez, melhor uma pasta sem flúor, entenderam?
Pra simplificar, é fundamental que os pais levem os filhos ao odontopediatra assim que nasce o primeiro dente. O profissional vai avaliar a rotina alimentar e as características de cada criança, e daí cada uma vai demandar uma frequência e maneira de escovação diferente de outra, guiadas pelo profissional.
Espero ter esclarecido algumas dúvidas frente a essa polêmica que tem sido o flúor.
Até a próxima!
Beijos, Le.

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